Se a inspiração não orbita diariamente meus neurônios ávidos de cálculos e metrificações, talvez seja porque a vida me paralisou. Perdas... perdas instantâneas e retrógradas, que abalaram meu cotidiano e os planos que eu fazia há algum tempo atrás. Isso é sobre mim, uma descarga de emoções aprisionadas de fora pra dentro. É sobre o mundo que eu conheci, e as asas que nascem constantemente sobre as minhas costas. É sobre as tempestades de alma, os gritos abafados pela agitação das pessoas em volta.
Eu prefiro estar sozinha...
E assim as vezes vem a inspiração. Lá do abismo mais fundo dos pensamentos ocultos pelo inconsciente; dos relapsos de memória que insistem em me perturbar.
Nada me reanima, porém. Procuro em todos os abismos, mergulho nos mais distantes mares dentro de mim - mas continuo paralisada. A ausência de algo que não me vêm à cabeça e a presença da saudade daquilo que nem sequer consigo dar nome me afetam deliberadamente, todos os segundos que sonho acordada. Porque durante à noite os sonhos são outros, fazem parte de outra dimensão, um mundo alheio aos meus problemas de adolescente. Um mundo que pertence ao meu inconsciente de 67 anos de idade, e o qual eu não consigo descrever - porque a alma sente, não diz.
E eu também prefiro sentir. Sentir na realidade aguçada do toque, do cheiro, do olhar.
Tudo em mim é sentimento, cada célula da última camada da derme que transmite impulsos nervosos ao cérebro com os comandos específicos da sensação. E mesmo sabendo que meus olhos me enganam a todo momento, eu ainda prefiro neles acreditar.
Mas para sentir inteiramente, por dentro e por fora, é também necessário mantê-los fechados.
A eternidade também não é assim?
domingo, 7 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Doce ilusão
Se hoje consigo descrever minhas memórias, é porque o tempo tenha talvez se encarregado de me desiludir. Ou a foi a ilusão quem se tornou doce e leve, de modo a me poupar das desconfianças do passado, das dúvidas com as quais morrerei. Mas essas dúvidas não são assim tão cruéis, e a própria vida talvez não tenha graça sem as perguntas e as curiosidades incessantes do ser humano. Não há como saber tudo – Sócrates já declarava não saber nada. Quem sou eu para querer saber algo?
Minhas memórias, no entanto, mostram incerteza. Algumas se apagaram, outras estão pouco nítidas. Algumas confundo com meus próprios sonhos, e fico sem prova alguma de terem sido de fato realidade.
Porque o problema de viver tempos muito bons é não saber se comportar quando eles acabam.
- Tudo acaba não? – Ninguém me respondeu.
E o tempo não se clareou. Ao contrário, depois de dias e dias de sol, lá fora chove. Depois de semanas e semanas de lividez e liberdade, lá fora vejo somente a escuridão.
Até quando?
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