quinta-feira, 19 de abril de 2012

Descontinuidades

O campo de futebol ficou mais bonito de uma frase à outra e os raios de luz que vinham do céu irradiavam também de mim. Era hora do almoço em um dia diferente de outono, que insistia em me derreter por inteiro enquanto eu só pedia o aconchego do inverno para que eu pudesse querer o calor do verão novamente. Uma formiga me picou mas a vida já vinha me anestesiando à tantos séculos (lê-se minutos) que eu nem cheguei a sentí-la... foi mais como só saber da sua existência - mas saber já não era o suficiente.
Os raios de sol continuavam a descer do céu mas minha visão estava confusa, e a incerteza da silhueta que via na minha própria sombra declarava que ia levar mais que um sorriso para a felicidade se fazer presente de novo. O que se fazia presente então era a lembrança - de vidas passadas, vidas não vividas, e de amores ainda não descobertos... Porque a lembrança do que ainda não existe é mais doída do que aquilo que já é passado.
A ordem virou caos e as palavras se embaralharam no ar - ou dentro de mim. Dimensões se entrelaçaram diante da minha noção abstinada de mundo e as ondas se quebraram em uma frequência só minha. Os paradigmas nos quais minha alma costumava se apoiar se esvaziaram - e agora, 21h38 de uma quinta feira descartável, encontro-me vazia.
Para que não bastasse a garganta seca e a culpa pela minha inutilidade forçada, encontro-me também impaciente por algo que desconheço. Meu coração bate forte e eu me perco de novo - e que me encontrem os que não sejam tão instáveis quanto eu.
Não é a desistência que se faz presente, mas sim a não insistência - em mim mesma ou na crença de que um dia a dor vai passar.
Sinto dizer, mas ainda vai doer mais - e não seria a dor o que falta para me preencher novamente de vida?
Me pergunto porque me posicionar sozinha na realidade tem me custado tantos sorrisos.
(...)
Mas o fato inexorável do tempo chamou meu nome e os minutos que passaram como viagens transatlânticas se foram. Não queria me levantar para a realidade - a exclusividade daquele universo fechado era tão mais confortável e acolhedora. Cálculos e metrificações não eram necessários porque minhas dúvidas estavam agora a anos-luz de distância e as viagens que me aguardavam não eram tão palpáveis assim.
Mas enquanto as dúvidas permanecem dúvidas, a dor permanece dor, e a realidade permanece sem sentido algum, a minha vida continua exatamente da onde tinha parado antes de eu me sentar para escrever; e o relógio marca agora 22h14 - com uma incerteza de segundos, batimentos cardíacos, notas musicais, moléculas de oxigênio, e escolhas.

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