sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Atrás do espelho

Eu acho que não sei escrever sobre o mundo. Sou tão intimista, egoísta e alheia das outras realidades externas a mim que simplesmente não sei me enxergar nelas.
Sou inteiramente o que me enxergo.

Mas o que enxergo?

(...)

E então os espelhos se quebraram e o vazio perpétuo sobrou de uma angústia quase sufocante. Não sabia o que era senão sua imagem física daquele vidro que reflete a gente.
Os espelhos se quebraram e não dava para atravessá-los mais, para aquela outra realidade atrás do que existe aqui - a fuga dos que se perderam e se entregaram demais para encontrar qualquer outro caminho que não levasse à escolha própria.
Mas encarar o fato intrínseco de se aceitar e enquanto isso ter que lidar com rejeições alheias é como ácido - corrói tão fundo que chega a doer na alma.
É sentir o prazer e depois ter de vê-lo sendo arrancado, desmanchado e dilacerado diante de sua já esquecida felicidade.
Os espelhos se quebraram mas sobrou também a descoberta - de se enxergar não só como parte viva do mundo, mas como o mundo em si. Porque existem tantos universos quanto são as almas que vagam pelo universo de deus, e a única realidade é aquela que se planta em si mesmo.

Não há outras, não há nada - só a realidade plantada no seu universo e o milésimo de segundo instantâneo e vazio que já se esgotou enquanto se pensava na existência dele.


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