sábado, 29 de novembro de 2014

Paul McCartney faz chover

Talvez o que eu vou falar soe clichê. Talvez você que está lendo não entenda muito bem a dimensão dos meus sentimentos, mas talvez esse entendimento não seja necessário. É que sinto que preciso externar o que vivi enquanto as memórias ainda encontram-se frescas na minha mente. A noite de 25 de novembro foi exaustiva, dolorosa e molhada - muito molhada. Como se não bastasse as queimaduras de um sol forte que desde as 10 da manhã brilhou na minha pele naquela espera eterna da fila, ao entardecer a chuva caiu torrencialmente para lavar nossas almas cansadas. "Paul McCartney faz chover" foi o que ouvi de um jornalista, e nada mais justo para se dizer. O Paul faz chover, faz chorar, faz gritar incansavelmente por um único olhar na multidão. A espera de quase 12 horas me fez ansiosa e inquieta, é sempre cansativo mas sempre vale a pena. E então as 21h45 do dia 25 de novembro de 2014, ele surgiu na minha frente mais uma vez. No início é difícil assimilar. Demorou o tempo de umas 10 músicas para eu realmente entender quem era aquela pessoa com cara de passarinho que estava ali há 5 metros de mim. Demorou, mas aí eu entendi e me despedacei. O senhor de 72 anos que eu via ali era também o rapaz de 25, com toda a energia e vitalidade que eu imagino que mostrava em um show nos anos 60. As rugas declaram a idade, mas nos passos, nos sorrisos e nos olhares eu enxergava o Paul de sempre, o garoto de Liverpool com seu violão, que um dia conheceu um outro rapaz chamado John e então juntos mudaram o mundo. Estar em um grande show é como fazer parte da história. Eu olhava ao meu redor e enquanto a chuva caía forte nos meus olhos eu me perdia no tempo. Podia ser 2014 mas podia também ser 67 - quem pode dizer que não? E depois de Eight Days a Week, I've just seen a face, We can work it out, Let it be e tantas outras cancões que nunca cansamos de ouvir, chegou Hey Jude para me enlouquecer de vez. É sempre a parte mais emocionante - ouvir o coro de milhares de pessoas numa harmonia perfeita de um refrão tão conhecido e tão amado. A chuva caiu mais forte durante Hey Jude, e foi maravilhoso. O tempo parou, eu não pensei em mais nada, não filmei, não tirei fotos. Estava de corpo e alma presentes, soluçando de tanto chorar e cantando um na na na na na rouco que em minha cabeça ecoava o estádio todo. O na na na na é como um grito de guerra, uma multidão que se aglomerou toda pela mesma razão tentando dizer "estamos aqui por você!". Tenho certeza que ele também não se cansa de nos ouvir no looping infinito do na na na na na - a música é sempre igual mas ela nos transforma toda vez. O show durou quase três lindas horas, que passaram como um minuto mas duram na minha mente como os 50 anos de história que ele construiu - com os Beatles, Wings ou sozinho mesmo. A chuva parou assim que o show terminou, deixando tudo mais seco e mais triste, e nós partimos como quem se despede de um grande amor - com aquela esperança incessante de o ver novamente. Essa certeza eu nunca terei, mas me sinto completamente feliz e realizada por ter tido a chance de vivenciar 2 shows maravilhosos e ter feito parte dessa história linda. Ele também terá de partir, assim como seus amigos de banda e de vida fizeram há algum tempo. Mas sinto que a cada música tocada, aonde quer que seja, existe uma parte de todos eles que ainda vive. E se o Paul representa o remanescente de uma das coisas que eu mais amo na vida, tenho certeza quando digo que o show foi um dos momentos mais inesquecíveis da minha existência toda. E aposto que John e George também estavam lá, caindo em cada gota de chuva que enxaguava nossas almas da tristeza de um mundo sem os Beatles - e nos lembrava de que sempre seria possível imaginar.

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